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Ameaça à linha de frente: casos de covid-19 entre profissionais de saúde crescem 2.512% na Bahia

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Em menos de quatro dias, a guerra contra o coronavírus levou embora duas combatentes. Auxiliar de enfermagem e enfermeira de unidades de saúde de Salvador, Sônia Maria Barreto e Jaqueline dos Santos, 38, são a face mais triste de uma estatística que, em um mês e dez dias, se tornou uma ameaça para os que estão na linha de frente contra o coronavírus na Bahia. De 10 de abril a 19 de maio, o número de profissionais de saúde que testaram positivo para covid-19 em todo o estado saltou de 66 para 1.724, um aumento de 2.512%.

O levantamento foi feito pelo CORREIO e pelo Comitê Contra a Covid-19, formado por 12 entidades, a maioria conselhos de classe e sindicatos da área de saúde. Os números são baseados em boletins da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab). Divulgados a partir do dia 27 de março, os boletins diários da Sesab não mencionavam os casos de profissionais de saúde. Só no dia 10 de abril, a secretaria divulgou 66 casos de trabalhadores da saúde infectados.

Desde então, o dado foi divulgado outras quatro vezes: 4, 12, 17 e 19 de maio. O curioso é que ele não batia com o do Ministério da Saúde, que no dia 13 de maio já indicava a existência de 1.174 casos de coronavírus entre os profissionais de saúde na Bahia. Tanto que, segundo a Sesab, os números tiveram um maior crescimento nos últimos dois boletins porque o levantamento foi unificado com o do Ministério da Saúde. Em nota, o órgão estadual informou que “os dados representam as notificações oficiais compiladas nos três sistemas oficiais do Ministério da Saúde (e-SUS VE, GAL e SIVEPGRIPE). Reiteramos o compromisso em apresentar dados fidedignos ao eliminar as duplicidades das bases nacionais e outros tipos de inconsistências. Vale ressaltar que os casos e óbitos registrados são atualizados por data de notificação”, reiterou a nota.

Avalanche

O fato é que a covid-19 parece uma avalanche de vírus sobre os profissionais de saúde. Na primeira divulgação do número de profissionais de saúde contaminados, no dia 10 de abril, a Sesab informou que 17 médicos haviam testado positivo. No último boletim, dia 19, já eram 211 médicos. O mesmo boletim traz 289 enfermeiros e 430 técnicos ou auxiliares de enfermagem contaminados. O gráfico também aponta 609 “outros” com covid-19, que envolveria profissionais da limpeza, agentes de saúde e atividades diversas na área. O total de profissionais de saúde morto é de seis. Sônia e Jaqueline foram a quinta e a sexta.

Acostumado a assistir os doentes, Gerson Bonfim, 53 anos, experimentou o outro lado da moeda de forma assustadora. Técnico de enfermagem do Hospital Geral do Estado (HGE), foi parar na UTI com covid-19. Internado uma semana no Instituto Couto Maia, teve que usar suporte de oxigênio para sobreviver. “Tive muito medo. Dias difíceis, pareciam não passar. O outro lado da moeda não é brinquedo, não! Fiquei bastante ansioso e preocupado. Graças a Deus, venci”, disse Gerson.

Motivos apontados para o avanço do coronavírus entre os que estão na linha de frente não faltam. Desde a escassez e o racionamento dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) até as falhas na capacitação das equipes. Desde o número reduzido de testes à higienização inadequada das unidades de saúde e a falta de agilidade, organização e assistência aos profissionais que precisariam ser afastados do serviço. Tudo isso estaria contribuindo para tornar o vírus ainda mais transmissível.

Os que sobreviveram ou ainda estão em tratamento agradecem, mas temem pelos colegas e pelos familiares que acabaram contaminados. Aos 43 anos, uma funcionária do Hospital Roberto Santos (HGRS) que prefere não ter o nome divulgado diz que pegou a doença de uma colega recém chegada do Hospital Santo Antônio, das Obras Sociais Irmã Dulce (Osid), onde houve um surto entre os funcionários.

“Foi bem naquele momento que estavam fechando o hospital. Eu dei um único plantão com ela, nem a conhecia. No dia seguinte ela informou à equipe que estava com sintomas. Três dias depois eu estava apresentando também. Fiz o teste e deu positivo”. Com falta de ar, a técnica de enfermagem acabou internada no Hospital Agenor Paiva e precisou de suporte de oxigênio. “Era uma mistura de medo e esperança de ficar bem. Não sabia nem o que pensar. É difícil estar do outro lado”.

A técnica teve alta no último dia 11. Mas agora aguarda a prima e a avó de 88 anos se recuperar. Ambas também pegaram o novo coronavírus. Aqui em minha casa somos 3 e todos pegaram. A avó está internada no Couto Maia. “Ela tem comorbidades, tenho medo, mas ela está vencendo”, diz a funcionária, que reclama da quantidade de máscaras que recebia nos plantões. “Não temos EPIs como deveríamos. Eles dão duas máscaras para 12 horas de plantão. Cada máscara é para ser usada por duas ou três horas”, explica.

Quanto se trata de profissionais de saúde, estamos falando de médicos, enfermeiros, técnicos e assistentes de enfermagem, fisioterapeutas, psicólogos e assistentes sociais. Desses, os técnicos, assistentes e enfermeiros são de longe os mais atingidos pela pandemia. De acordo com o Boletim Epidemiológico da Bahia, no dia 10 de maio eram 166 técnicos e 141 enfermeiras infectados. Na quinta-feira (14) o Observatório da Enfermagem registrava um total de 480 profissionais com diagnóstico confirmado para Covid-19 na Bahia, todos afastados e em quarentena.

Segundo o vice-presidente do Conselho Regional de Enfermagem (Coren-BA), Handerson Silva, além dos problemas com EPIs e treinamento, a própria natureza de trabalho das enfermeiras e técnicas as expõe muito mais ao risco que os demais profissionais de saúde. “As enfermeiras têm como objeto de trabalho a assistência aos pacientes e a gestão da unidade. Elas estão quase que 24 horas ali. Estão sempre mais próximos dos doentes que os médicos, psicólogos e fisioterapeutas”, destaca Handerson.

Bomba relógio

No caso das técnicas e auxiliares, a proximidade é ainda maior. “Elas têm um trabalho manual, mais próximo do paciente. Do banho à alimentação, de curativos mais simples à medicação menos complexas, são elas que fazem tudo isso. Portanto, elas estão muito mais susceptíveis”. Handerson diz que a falta de equipamentos, especialmente no início da pandemia, aliada à falta de treinamento, se tornou uma bomba relógio que está começando a explodir.

“No início da pandemia isso foi um grande problema. Nenhum lugar estava preparado. Era uma bomba relógio que está explodindo agora. E o drama da insuficiência desses equipamentos ainda existe. Estamos vendo muitos profissionais adoecendo também por essa falha estrutural”, afirma Harnderson. “Unidades públicas e privadas também falharam na capacitação dos profissionais, especialmente em relação ao uso dos equipamentos”, completou.

As equipes da linha de frente já estão desfalcadas, dizem as entidades que formam o comitê. A solução, apontam, é contratar. O comitê também destaca a necessidade de afastamento dos profissionais idosos e de outros grupos de risco. Aliás, na quarta-feira (13), o próprio Coren-BA conseguiu uma liminar na Justiça Federal para afastar estes profissionais na Bahia. Segundo o conselho, ainda que os profissionais mais vulneráveis sejam afastados, não vai faltar mão de obra. Mas, é preciso convoca-los.

A Bahia tem hoje mais de 130 mil trabalhadoras da enfermagem. São 38 mil enfermeiras, 80 mil técnicas e 18 mil auxiliares de enfermagem. Muitas delas, diz o Coren, estão sem trabalhar. Portanto, o fato de afastar as profissionais do grupo de risco não chega a ser um problema. “O mercado tem milhares de enfermeiras prontas para entrar nessa guerra. Basta convocar”, afirma Handerson.

No caso dos médicos, o Conselho Regional de Medicina (Cremeb) diz que recebe denúncias periódicas de falta de EPIs. E que há outra questão importante. Muitos médicos de áreas da medicina que estão paradas poderiam estar ajudando na linha de frente.

Exponencial

O Comitê Contra a Covid-19 submeteu os números da Sesab a profissionais de exatas que fizeram cálculos exponenciais. “Se o número de casos entre os profissionais de saúde continuar crescendo nessa proporção, teremos, nos próximos oito dias, 1.928 trabalhadores da saúde contaminados”, afirma a coordenadora do comitê, a vereadora Aladilce Souza.

Diretora do Sindicato dos Trabalhadores em Saúde do Estado da Bahia (Sindsaude), Inalba Fontenelle afirma que falta atenção às unidades chamadas de “retaguarda” ou “de portas abertas”, ou seja, as que não são exclusivas e especializadas no atendimento aos casos de covid-19. São essas unidades, diz Inalba, que acabam recebendo casos de coronavírus de forma desavisada. É aí que muitos profissionais de saúde estariam se infectando.

“Essas unidades sentem a falta dos melhores EPIs. Esses profissionais precisam das melhores proteções tanto quanto os do Couto Maia e Ernesto Simões”, disse Inalba, citando as unidades especializadas. A diretora do Sindsaude também ressaltou a importância do afastamento imediato dos profissionais com sintomas, o que, diz ela, muitas vezes não acontece. A falta de testes também seria um problema. “Há um acúmulo de funcionários que não conseguem fazer os testes”.

Surto no Curuzu

Enquanto os números vão crescendo de forma avassaladora, as histórias reais se multiplicam em hospitais, postos de saúde e emergências. Muitas delas confirmam o que diz o comitê, inclusive em relação à racionamento de EPIs. Com dores no peito, tosse seca e uma dor de cabeça que não parava de latejar, a técnica de enfermagem Cátia Nascimento, 39 anos, testou positivo para covid-19 no dia 03 de abril.

Funcionária da Unidade de Emergência Mãe Hilda, no Curuzu, uma paciente que ela atendeu havia testado positivo. Foi aí que acredita ter se contaminado. Assim como ela, o Sindisaude garante que há outros seis funcionários da mesma unidade contaminados. Dez aguardam resultados dos testes. Os profissionais reclamam que, no início da pandemia, faltavam EPIs. Hoje, esses EPIs estariam sendo racionados e não seriam ideais para se proteger do vírus.

“No momento em que me infectei, estávamos contando apenas com luvas e máscaras cirúrgicas, um avental fininho e uma touca. E assim atendi o paciente e me infectei. Os materiais para a covid deveriam ser totalmente diferentes”. Quando soube da infecção, Cátia não chegou nem a ir para casa. Com receio de infectar a família, seguiu direto para o Hotel Malibu, em Stella Maris, que está recebendo profissionais de saúde com coronavírus. “Só agradeço que não precisei de um tubo na minha garganta”.

Cátia ficou 15 dias afastada de casa e foi liberada no Dia das Mães. Hoje, dizem os funcionários da unidade, até há EPIs, mas de forma regrada. Cada profissional recebe duas máscaras cirúrgicas para um plantão de 12 horas, o que é inadequado. “Uma das maiores lutas do Curuzu é, sim, a falta de EPI. Eles mandaram máscaras, mas é regrado. Eles dão duas máscaras, mas cada uma dura três ou quatro horas. O plantão é de 12 horas. E nem é a máscara mais adequada. Compramos escudos e óculos do próprio bolso”.

O Sindsaude diz que, diferente de antes da pandemia, as unidades hoje não têm autonomia para a aquisição dos EPIs. Está tudo centralizado na Sesab. A distribuição, diz o Sindisaude, é ineficiente. “As unidades precisam fazer estatística de máscaras para eles disponibilizarem determinada quantidade. Mas essa quantidade tem sido inferior à necessidade real. Isso gera um perigoso racionamento. Não é só máscara. Acontece com álcool gel e todo o resto”.

Não faltam EPIs, garante Sesab

Questionada sobre a falta e racionamento de EPIs nas unidades de saúde, a Sesab negou que isso seja um problema. Em nota, a secretaria afirma que todos os hospitais e postos de saúde, sejam eles referência para tratamento da covid-19 ou não, estão abastecidos. “Não há falta de equipamentos de proteção individual em quaisquer unidades estaduais. A Sesab fez volumosas aquisições de máscaras cirúrgicas, máscaras N95, óculos, capas e todos os EPIs de acordo com o setor que o profissional trabalha”. Além disso, o órgão destacou que vem instalando túneis de descontaminação em diversas unidades

A respeito da falta de testes em funcionários, a Sesab também diz que está testando todos os casos em que há necessidade de acordo com os protocolos. Os testes, diz a secretaria, envolvem critérios. As unidades de saúde devem realizar a coleta de amostras de profissionais no caso de o funcionário estar com síndrome gripal ou tenha tido contato com casos confirmados de covid-19 mesmo assintomáticos. Acontece que há muita gente dentro desses critérios que não é testada. Caso de Whashington Luís de Aqui, 51 anos, funcionário do Roberto Santos. Ele diz ter tido contato com diversos colegas que testaram positivo. Whashington está afastado não por coronavírus, mas por pressão alta. “Tive uma crise de pressão alta e me afastei. Mas estou sem saber se peguei covid porque não me testaram. Várias colegas que tive contato pegaram”.

País tem mais de 31 mil profissionais de saúde com Covid-19

Desde que o novo coronavírus chegou ao Brasil, o Ministério da Saúde registrou quase 32 mil casos confirmados de Covid-19 em profissionais de saúde. Os dados foram divulgados na quinta-feira (13). Na ocasião, 199.768 profissionais haviam sido identificados como casos suspeitos da doença e precisaram ser afastados. Além dos 31,7 mil confirmados, 114.301 ainda estão em investigação e outros 53.677 já foram descartados.

Em uma coletiva virtual realizada esta semana com o Comitê Contra a Covid-19 da Câmara de Vereadores de Salvador, a presidente do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN), Maria Luisa Castro Almeida, disse que 108 profissionais da enfermagem já morreram por conta da doença em todo o país. “Não se trata só da falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), mas também de condições precárias em que os profissionais já passavam, como jornadas duplas de trabalho, salários baixos e que se agravaram mais ainda com essa nova situação”, afirmou.

Dos casos suspeitos, a categoria mais afetada é a dos técnicos ou auxiliares de enfermagem (34,2%), seguido dos enfermeiros (16,9%) e dos médicos (13,3%). Segundo o ministério, os dados ainda são preliminares. “O trabalho que tem sido feito pelos profissionais de saúde no enfrentamento ao coronavírus tem nos preocupado bastante devido ao número de afastamentos. Independente dos casos confirmados ou não, todo profissional de saúde que apresentar sintomas ele precisa ser afastado”, afirmou o secretário-executivo de Vigilância em Saúde, Eduardo Macário.

O secretário explica que a orientação do ministério é que indícios de síndrome gripal sejam suficientes para afastar esses profissionais. Segundo ele, é necessário que as três esferas do sistema de saúde se comuniquem sobre o adoecimento dos profissionais para viabilizar reforço de mão de obra por parte do Ministério da Saúde.

“Todo profissional que apresenta quadro de síndrome gripal como febre, tosse, dor de garganta, tem que ser afastado preventivamente e tem que ser feito teste para identificar se está infectado com coronavírus ou não. Estamos trabalhando junto com os estados para entender. É importante termos não somente os equipamentos mas os profissionais”.

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